terça-feira, 5 de março de 2013

NO FOSSO DA TUA ESPERA

Você já se imaginou de volta
depois da curva deixada
atras da porta

e na volta
descobrir que não partiu
que tudo não passou
de uma imagem torta
no fosso da tua  espera

Você já fechou os olhos
querendo apagar o teu presente
e acordar no teu passado

já  sonhou viajar sem porto
em direção ao infinito do ontem
sem perdas e danos

já ficou quieta
esperando a lágrima fugir de dentro
bem pra longe de ti

e nessa espera
esqueceu de  desejar a volta
e que valeu a pena
tudo
tudo valeu a pena
nessa cena
de uma outra história

sábado, 23 de fevereiro de 2013

O peixe e o pássaro

Um dia, um peixe ousado, por contemplar o céu e sonhar com aquele imenso azul, imaginou-se pássaro e sonhava noite e dia naquele céu.
Não seria diferente, seria indesculpável a temeridade de se expor, mas asilou a tentação de voar.
Qual estivesse amparado por estranha força invisível, depois de beijar enternecido o ar, mergulhou quase que seguro naquele estranho e desconhecido mundo, mas seu mar.
Todas as tardes dividia o olhar entre o firmamento cintilante e as águas tranquilas, e sempre abismava-se em profundas indagações que nenhum outro peixe poderia sondar.
Morrer mil vezes, mas um dia deixaria esse mar, voaria e mesmo que tortura fosse assim sonhar e por menor que fosse esse padecimento em frente ao céu, não despojaria viver só para o mar.
Pobre peixinho, não obstante a fortaleza de sonhar, quando por vez primeira ouviu aquele pássaro cantar, cedeu a tortura que antecede o desalento, e entre a paixão inacessível, tentou fugir daquele cantar, mas em vão cedeu a fadiga de voltar bem próximo às margem, arriscar só para sentir aquela voz, aquele cantar.
Venceu a inquietude e a solidão o compelia a recuar, mas ainda assim todo ocaso estava lá, aquela paixão que lhe conspurcava a paz de sonhar e desejar ser passaro só para voar. Já não era ele, que sonhava, aquele pássaro já era ele e ele não sabia explicar, e nem sabia se cantava ou estava só a escutar.
O peixinho compreendeu que vivia em um mundo e aquele que ele via na lusa fusca e que mergulhava por vezes e sentia-se voar era outro mundo outra vida, que ele um dia estaria por lá, seria pássaro, cantaria da nostalgia de querer voltar para o mar.
Aquela paixão entre dois mundos tão próximos mas tão distantes pois que um não poderia permanecer no mundo do outro se não por instantes, apenas instantes e no depois seu mundo ainda era o mar.
Amar, amar, o pássaro e o mar, ambos pertenciam a ele, e ele era às vezes pássaro às vezes era mar. Mesmo em corpos diferentes, mesmo em mundos diferentes, mas o tempo, o tempo essa medida do que não há, o tempo era por vezes o medidor de mundos, era sim, aquilo que lhe dizia, que ele podia ser ao mesmo tempo, pássaro, peixe e mar, tudo se resumia na vontade de materializar, de se ver em um mundo ou em outro lugar, tudo era possível na ideoplastia de materializar a vontade aqui e acolá, o que importava era sentir e sentir às vezes até que não se encontra em qualquer lugar, sentir é algo que mora no lado de cá, no lado de cima do coração quando se esprai em sonhar.
Ser peixe por ora, ser pássaro sem demora, tanto aqui como lá, são mundos reais, pois é real também sonhar, imaginar , desejo que torna-se vontade pelo acionar, pela ação de querer, o desejo passa a se materializar do lado de cá.
Ah! o peixinho estava apaixonado, e paixão é o climax da ideoplastia, pois materializa o objeto da paixão de tal forma que não se sabe mais o que é peixe e o que mostra-se fora do mar, pásssaro que voa ou peixe que ama, tudo, tudo é um só lugar.

Acordou ainda noite, estava em um galho bem próximo a face limpida do lago azul. Apertou bem os olhos e conseguiu visualizar no ocaso do acordar, aquele peixinho bem próximo,quase a lhe tocar e de repente olhou bem para as suas asas e inventou um vôo.
Mesmo voando ele não conseguia distinguir se ele era passáro que havia sonhado ser um peixe ou se era um peixe sonhando voar. Sentiu a carícia do vento e o beijo deslizava por entre seu bico e penas, mas ainda assim, não sabia se era peixe, passáro ou mar. Mas sabia e sentia que amava e amava aquele peixe e aquele mar e não importava se ele sonhava ou estava do lado de lá e sim importava que sentia e sentir é viver todo dia é ser peixe, é ser passáro e mar, é ser vento e céu é ser tudo, tudo que há, é sempre estar em algum lugar.


 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

desaviso

E se eu disser que te amei
acreditarias em minhas lembranças?
se não busquei a eternidade do nosso vislumbre
vaguei em solilóquio doloroso

mas eis que tu vagueias em mim
como querobim desavisado

sigo amando teu espento
de não te ter por descanso

e se eu disser que sigo
e é  reflexivo o meu desaviso

e amando e amando
por vezes te escuto em verde e rosa
me querendo tanto

Parou naquela estação
o prazer que explodia
a nossa emoção

conta-me a tua vida
por agora
tua filha que chora
quando escapa teu seio
e das horas que cantas
e encantas  o beijo de agora
do espaço molhado
entre o céu e o teu laço
da tua nova esperança
da tranca quando tranças
a porta atras de ti

idilio

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

lusa-fusca

Dirias
idílio
e nada respoderias além do eco em mim

tudo é tão átimo
e nem represento que hoje
é o ágora
se meus olhos fecham
e nem sei se o presente é o que se quis

Dirias
Deus
e nada responderias
além do desejo de vive-Lo
é fusca a lusa da minha viagem

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

o ano que morreu


Meu bem

Tudo de repente sumiu

E olha que nem é primeiro de abril

Mas esse teu olhar no meu

Foi teu desejo

E não seu

Meu bem

Hoje o ano sumiu

E olha que nem assim

Você ressurgiu

Mas o meu pensamento

No teu

Foi desejo meu

E não teu

Meu bem

Leia

teu passado no meu

e olha que nem sou teu

nem eu

sou assim

como o ano que morreu

meu bem

 

 

 

cicatrizes

meu corpo de guerreira
esculpido pelas cicatrizes de guerras
expostas em mim

minha pela derrama o suor
das conquistas
e cada vitória
será sempre um novo
recomeço

e nessa lusa-fusca
que ofusca as dores da batalha
ah! ilusória natureza
que cegao gesto
de recusar-se a ver
que a vida não é conquista
é recepiente vazio
mas que tragicamente sublime

o que torna majestosa
a beleza frágil
do viver

a janela dos mortos

Triste espaço no compasso a dois
os corpos são frêmitos da desordem
e as almas desfrutam caminhos opostos

conviver conspira o desmando da maldade
lados e espaços vazios
átomos que nem por um átimo
sustentam as janelas dos mortos

insegura
a dura certeza da despedida
que por desnuda
despe a vida em dois

triste a conspiração da maldade
que por ser pública
torna impudica
o amor


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

mentiras e outras ilusões

estou cansado de ser mar
cansado das variáveis e das mentiras da lua
que teima ser cheia quando se é igual
a nova ou meia
minguante inteira
mas que é sempre a mesma
nua lua

cansado da ilusão efêmera
que se repete
e que inunda a fantasia
e entorpece a íris
mas eis que queda
a mesma
lua nua e sem rosto

cansado de olhar-te e nada ver
além de uma fantasia que silencia
a mentira de estar lá
inteira
e por er a mesma
não pode ser nova ou cheia
nem minguando será inteira

cansado por saber que voltas
sem nunca teres partido para alguma chegada
e ainda creio que voltastes do nada
que teu semblante denuncia
vazia
lua inteira

eis tua mentira
e enganas os tolos
eis-me a acreditar
em tua ilusão desmedida
que estais sempre aqui
bem perto do fim




sábado, 1 de dezembro de 2012

Manuela

Sou tua marisia
e queria ser tua
nem queria ser só minha
mainha
queria sim
ser só tua
mandinha
e você ser só minha
maninha
queria morar na tua história
pra você escrever a minha
queria sim
por isso vim
e sento em teu colo
e lambuzo teu peito
queria
queria
por isso vim

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

JANELAS

Todas as lembranças
são encontros com o passado
pela janela do coração

se sou poeta
ou artista em minha vida
só serei
pela janela que abri
e vi
o tempo escorrer
no vazio de mim

e mesmo a tristeza tem janelas
mas procuro dizer a esta
sempre
jamais olharei pela tua fresta

se sou janela
por vezes serei espaço
em teu ser
ou serei o grande abismo
que afasta por amor
as coisas que deseja
pelo amor de desejá-las

e por vezes
de tão perto
os que dele nada sabem
pensam que o possuem
pois que vêem apenas sombras
do que vivi e vi
pelas janelas que abri

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A reconstrução do templo

Eu vi a tua primeira casa
mas aquela casa não era a tua
aquele templo não era o teu
aquela glória não era embastada
era glória gasta

quem viu aquela casa
na sua primeira glória
o que vê hoje
é sepulcro caiado

o que te foi tirado foi templo gasto
recomeça a construção do novo templo
porque sou Eu convosco
e a glória desta última casa
será maior que a primeira

Aquela casa não era a tua
e não desejo devolve-la
como teu encanto primeiro

Edifica teu novo templo
e me faz guia
não desprezes o humilde recomeço


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

SAUDADE

Saudade éa dor em liberdade
não é só uma palavra gasta

saudade é mágica que se espalha
na ferida causada pela distância
entre nós

saudade é ópio
é engodo da dor

é neblina que adormece a iris
mas é mera luz
na escuridão da dor

saudade é a minha dor em lamento
é vento que se espalha
é fragmento de uma lembrança

saudade
saudade

sábado, 3 de novembro de 2012

tempo perdido

Se não carpinas onde visito
e és espuma que flutuas
em minha vida

se já não sentas mais
na minha esperança
nem esperas mais
a minha volta

que faço eu na tua sala
se já não nem enfado a tua cama?

e nessa desdita em arremesso
nem sei se é hora de partir
ou de mentir

apenas imito a tua boca de outrora
e sigo sem espaço
no teu compasso
de moça velha

se já não desperto teu sarcasmo de mulher
esqueça
pra que morar na tua cãmara
e não ser primeira?

tempo perdido
esse que embalei o teu vestido
e te fiz dama
entre tantas
que enganam
entre falsas esperanças
de moça velha

MEU DESEJO

eu desejo que você saiba
que por vezes me pego
amando você

que sou a sua voz
quando grita
e a gruta que empossa
teu nome

que não esqueço
o pouso da minha mão
no teu quadril

eu desejo que você saiba
da necessidade de te ter comigo
nas coisas que se tornaram instáveis

da sofreguidão do meu apetite
desarraigada com o crescer dos anos
e que desde então
ninguém seguiu o curso de minha vida
tão bem

eu desejo que você saiba
que as coisas ínfimas
também deleitam
mas não suportam a solidão

que o meu desejo
e o medo de o perder
tornou apático o meu dia

eu sinceramente desejo
que você saiba
que a místura de sílabas
na sua boca
foi meu paráclito consolador
e minha lágrima
de despedida

sábado, 27 de outubro de 2012

Deus

Teus impulsos e meus pecados
minha desdita e Tuas promessas
Teus planos e minha história
minhas lágrimas e Teu jejum de Pai
meu desespero e Tua espera
minha súplica e Teu descaso

serei eu pedinte e Tu ouvinte ?
ou És esbolço e eu fumaça
És soberano ou fado ?
pois sou tristeza que se renova
e ainda assim não me deletas

então És dúvidas e eu solidão
porque flutuas em meu espaço
serei vazio sem teu Espírito
ou apenas riso
na boca dos faustos

ainda assimserei dependente
serei crente na minha escolha
e mesmo que morra sem meu espaço
serei fiel serventuário
e direi que Deus é para os fracos
não para os falsos intinerários





terça-feira, 23 de outubro de 2012

imperfeição

o canto e o meu espanto
o olhar que volta e o pranto
que por ser espera é recanto
que por ser saudade
pode ser santo
pode ser encanto pode escorrer
pode ser entrondo
ainda que sozinho
é manso
ainda que único
inunda
ainda que distante
alimenta
ainda que mudo
fenece a garganta
e estremece o típano
do surdo
o canto e o meu espanto
o olhar na porta do pranto
que por ser canto espera
que por ser volta
pode ser puro
ainda que sujo
é único
ainda que distante
alimenta
ainda que dúvida
abala a certeza
do amanhã


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

o amor em tempo real

os amores tornam-se dependentes das necessidades
de reter o ser amado  no plano do olhar
a intensidade dessa necessidade
cresce com o número de incertezas incorporadas no olhar
quanto mais o manuseio das incertezas
exigir o toque
os amores anseiam por um poder perpetuador
do amor
e na incerteza da eternidade
o medo se instala e procura entender a si mesmo
como fonte suprema do mistério de amar
e admitir que amor define espaços
e delimita a razão
é o exercício definidor que traça fronteiras
entre um novo e um velho amor
e nesse processo de descoberta da razão
negligencia-se as relações de afeto
que por descaso
torna-se enfado e confrontação
e quem não se despoja das ilusões do conformismo
diante do amor em tempo real

idilio

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

escombros

preciso jogar os escombros
nunca mais lágrimas que se vão
jardins
tardes de verão
preciso seguir sem nãos
mas te quero demais
perdi o medo de te querer
mesmo sabendo
que não foram tardes perdidas
e o fruto dividido em nós?
mesmo sabendo que não é possível
voltar a tardes perdidas
o que importa
é nosso rio antigo
mas e você o que faz
quando por vezes
pensa em mim

a porta

o vidro embassa
a noite passa
o grito engasga
o suor descalça
o lábio implora
a porta destroça
o gosto que vem
as mãos  se enroscam
o rosto na porta
a lingua que suga
a flor que encanta
o medo da volta
a casa escura
a rua morta
a porta
a porta
o olhar que derrama
o drama da dama
a explosão que cala
a nudez da escosta
a porta
a porta
o penetrar do espanto
o canto e o gemer surdo
do pranto
o uivo no escuro
o pulo
e a porta torta
do descuido

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Learh

já te pedi pra não me olhar com olhos de promessas
nem para canonizar meu querer em teu altar
mesmo que as bocas alimentem o corpo nu
a alma permanece vazia se não estais no fim da tarde a me esperar

já te implorei para não depositar a lembrança na porta da frente
sei que a  casa não está  vazia pra me esperar
nem no final da noite vais estar lá
sentada na sala escura pra me abraçar


já  te implorei
vem pra cá!!
mas sei que foi outra história que escorreu
naquele lugar
foi duas sementes que se escondem
pra não entortar o dia
mesmo que alimentem
bocas vazias
como a rapinar o amor que devia estar lá

já te implorei  pra não despertar o sonho
basta olhar a tarde
no final do dia  e sentar  no colo
da noite que espia
como a duvidar
que é falso o sol que vai deitar
ou será falso o olhar do dia
que estar por findar