segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

CARTA DE UM PAI


Poderia te falar dos sonhos

de medos e iniciar sem entender o meu estranho amor 


Poderia te ensinar a andar

como contornar a barba e até como amar mais e mais


Poderia te firmar

que mais vale o amor de uma mulher a aventuras trôpegas

te ensinar a tragar um bom vinho

nas noites de solidão

e até como desviar as lágrimas

quando a dor insistir em visitar a tua morada


Mas o que sei?

se busco aprender a ser teu amigo íntimo

ser teu confidente

poder sim

degustar contigo um bom vinho

e chorarmos juntos as alegrias e dores

que a vida ainda nos reserva


Bom

vou começar falando sobre o amor e te digo

o homem deve amar uma só mulher

por toda a vida


falo de amor que permite contemplar

que espanta a solidão

que deseja estar perto

que se satisfaz apenas

quando deita no colo da amada


quando o coração acelera 

apenas ao vê-la ao longe

 

Cuidado com as  ilusões

do sexo e das paixões

Só o amor permanece

quando o desejo vai embora


O amor de pai

para com o filho é diferente

tem mais de dependências emocionais  e preocupação


E o amor do filho para com o pai é de admiração

amor que dói quando nada mais restar a não ser a saudades

 

Mas eu percebi que existe um grande vazio dentro de nós

dos homens


e te digo

esse vazio só pode ser preenchido com Cristo Jesus


Nada

nada projeta e nem substitui esse amor


Cristo deve ser nosso tudo


Ele permite superarmos todos os amores 

quando estes tornarem-se saudades


Assim filho

aproveite o tempo com Cristo

que seja um encontro

e não uma despedida

que seja um começo

de uma caminhada dependente Dele

a nossa verdade é Ele

A fé é a certeza de que Cristo está no controle de tudo


do teu Pai


Idílio

A MESA VAZIA

Não sei se choro

se entorto

nada sei pois a lágrima não vem

a porta não advém

apenas um sentimento de tempo perdido

Não sei se grito

ou se esquecido

evito o desperdício da experiência 


Não sei se existo 

ou resisto

pois não sedimentei

desejos suficientes

ou não eduquei adequadamente

para a vida

meus únicos bens


Não sei se vivi

pois não visualizo a estrada que escrevi

Nada restou marcado 

Uma história sem leitores

são  vazios 


Uma vida sem desejos

escárnio 

Se não encarnas admiradores 

O medo se aloja 

E a mesa vazia


Silente e empoeirada 

Não serve pra nada


IDÍLIO

PRA TE ENCANTAR

 

Deus está cuidando de tudo

Desenhando teu busto

Para te encantar


Deus está podando teus galhos

Está rasgando farrapos

Para te levantar


Espanta o cansaço 

Enxuga as lágrimas e

Dá um salto 


Deus está cuidando de tudo 

Desenhando teu futuro

Pra te encontrar

Pra te encontrar


Lavando o passado 

Destronando o impossível 

Pra te encontrar

E te encontrar


Preparando a sala

Reconstruindo teus laços 

E juntando pedaços 

Pra te levantar 

E

Te encontrar


Espanta o cansaço 

Enxuga as lágrimas

Dá um salto


Deus está cuidando de tudo

Desenhando teu busto

Pra te encantar



IDÍLIO

ANDAR ANDAR


Seguimos

invariavelmente seguimos


Dia a dia a música toca 

O trem não para

A menina agora é mulher

A chuva cessa e o sol ainda é o mesmo


O cabelo perde a melanina

A pele escalpa


A dor enlaça e a lágrima pesa

Seguimos e não tem como parar 

A fita 


O amor acaba

A dor descalça

Os anos deixam estradas


A velhice acalma

A lágrima petrifica

O amor escapa


Seguimos e bem perto do fim da estrada

A visão perde a graça 

A moça passa 

E a morte chega


IDÍLIO

O PLATONISMO QUE INVENTEI

Andei em mundos disformes 

Dismundos solenes e retóricos 


Andei por veredas antigas

Estradas e vales


Subi montes e serras 

Cansei na estrada

Perdi o norte de mim


E andei a colher sementes e frutos

Da semeadura livre

Entortei meu canto

Isolei meu espanto


Perdi vidas e pranteei meus versos

Chorei sem plateia

Engoli a dor do descaso e do esquecimento


hoje 

deito na rede da solidão

vago feito alma aflita

e

Perdida


Amei tão intensamente 

que planifiquei a minha espera

e calcifiquei a minha saudade

no ralo que escorre desejos


Estou só no platonismo que inventei

Mas por descanso 

Durmo tranquilo


Idílio

SAUDADE DOS MEUS APAIXONADOS


Saudade

Dos meus únicos 

Meus oportunos individuais

Da rede

Do meu descalço 


Saudade 

Quando iludia a fome

Do magro pedaço 

Quando só tinha o sonho

Do fausto 

Quando aqueronte era só um rio

No espaço quadrado 


Saudade do furo 

Que resfriava o sapato 

Do cheiro de mato

Do descaso


Saudade da rua

Do meu imaginado

Quando rompia a fortuna 

No meu descalabro 


Saudade é fato

E hoje é espaço 

É mistura pra todo lado


Saudade do meu apaixonado

Quando chorado 

Não tinha nem lado

Mas corria calado

E era rei e soldado

Não tinha nada 

Mas tinha a certeza

Que a vida era fado 


Saudade 


Saudade

Do olhar desejado

Do pedaço 

Do pequeno espaço 

Da conquista 

Da dor de ter chegado


Da despedida 

No campo sagrado

Da esperança de ter desperdiçado 

Saudade da brisa da serra

Do viver infinitamente 

Desprendido do mar


Saudade do bar

Da igreja e do sino 

Saudade do menino 

Que corria no ororubá


Saudade é não poder voltar

Saudade é fado


Idílio

sexta-feira, 8 de julho de 2022

Amores leves

 De repente e mais que de repente

A ruga aparece e o cabelo esquece que tem cor 

A voz cala e o sonho permanece

A preocupação com o amanhã desaparece

E a vida fica mais bela 

Pois vive-se a cada dia sem esperas

A noite chega 

O desejo de correr mundo

adormece

Você prefere beijos 

E amores leves 

Sem pesos da produção de prazer

Você percebe a curva 

E torna-se detalhista

Digo

É

Prazeroso envelhecer

Tornar-se solidão 

e tendo como princípio básico 

A sua própria satisfação 

Envelhecer é assim

Nem pense ser o começo do fim 

É o começo do  comprazer

Que é a delícia do saborear 

A experiência do perceber

Andar andar

 Andei em mundos disformes 

Dismundos solenes e retóricos 

Andei por veredas antigas

Estradas e vales

Subi montes e serras 

Cansei na estrada

Perdi o norte de mim

E andei a colher sementes e frutos

Da semeadura livre

Entortei meu canto

Isolei meu espanto

Perdi vidas e pranteei meus versos

Chorei sem plateia

Engoli a dor do descaso e do esquecimento

E hoje 

Deito na rede da solidão

E vago feito alma aflita

E

Perdida

Amei tão intensamente 

Que planifiquei a minha espera

E calcifiquei a minha saudade

No ralo que escorre desejos

Estou só no platonismo que inventei

Mas por descanso 

Durmo tranquilo

Saudade do meu apaixonado

 Saudade

Dos meus únicos 

Meus oportunos individuais

Da rede

Do meu descalço 


Saudade 

Quando iludia a fome

Do magro pedaço 

Quando só tinha o sonho

Do fausto 

Quando aqueronte era só um rio

No espaço quadrado 


Saudade do furo 

Que resfriava o sapato 

Do cheiro de mato

Do descaso


Saudade da rua

Do meu imaginado

Quando rompia a fortuna 

No meu descalabro 


Saudade é fato

E hoje é espaço 

É mistura pra todo lado


Saudade do meu apaixonado

Quando chorado 

Não tinha nem lado

Mas corria calado

E era rei e soldado

Não tinha nada 

Mas tinha a certeza

Que a vida era fado 


Saudade 


Saudade

Do olhar desejado

Do pedaço 

Do pequeno espaço 

Da conquista 

Da dor de ter chegado


Da despedida 

No campo sagrado

Da esperança de ter desperdiçado 

Saudade da brisa da serra

Do viver infinitamente 

Desprendido do mar


Saudade do bar

Da igreja e do sino 

Saudade do menino 

Que corria no ororubá


Saudade é não poder voltar

Saudade é fado

terça-feira, 5 de julho de 2022

Andar andar

 Andar andar

Seguimos invariavelmente seguimos

Dia a dia a música toca 

O trem não para

A menina agora é mulher

A chuva cessa e o sol ainda é o mesmo

O cabelo perde a melanina

A pele escalpa

A dor enlaça e a lágrima pesa

Seguimos e não tem como parar 

A fita 

O amor acaba

A dor descalça

Os anos deixam estradas

A velhice acalma

A lágrima petrifica

O amor escapa

Seguimos e bem perto do fim da estrada

A visão perde a graça 

A moça passa 

E a morte chega

De repente


De repente e mais que de repente

A ruga aparece e o cabelo esquece que tem cor 

A voz cala e o sonho permanece

A preocupação com o amanhã desaparece

E a vida fica mais bela 

Pois vive-se a cada dia sem esperas

A noite chega 

O desejo de correr mundo

adormece

Você prefere beijos 

E amores leves 

Sem pesos da produção de prazer

Você percebe a curva 

E torna-se detalhista

Digo

É

Prazeroso envelhecer

Tornar-se solidão 

e tendo como princípio básico 

A sua própria satisfação 

Envelhecer é assim

Nem pense ser o começo do fim 

É o começo do  comprazer

Que é a delícia do saborear 

A experiência do perceber


Idilio

domingo, 12 de junho de 2022

SAUDADE É SOLTAR A INÚTIL QUEIXA

 Saudade 

dos meus únicos

meus oportunos individuais

da rede

do meu descalço


saudade 

quando iludia a fome

do magro pedaço

quando só tinha o sonho

do fausto

quando aqueronte era só um rio

no espaço quadrado


saudade do furo 

que resfriava o sapato

do cheiro do mato

do descaso


saudade da rua

do meu imaginado

quando rompia a fortuna

no meu descalabro


saudade é fato

e hoje é espaço

é mistura pra todo lado


saudade do meu apaixonado

quando chorado

não tinha nem lado

mas corria calado


e era rei e soldado

não tinha nada

mas tinha a certeza

que. vida era fado


saudade


saudade do olhar desejado

do pedaço

do pequeno espaço

da conquista

da dor de ter chegado


da despedida

no campo sagrado

da esperança de ter desperdiçado

saudade da brisa da serra


do viver infinitamente 

desprendido de amar

saudade do bar

da igreja e do sino

saudade do menino

que corria ladeiras

no ororubá


saudade

saudade é não poder voltar

é soltar a inútil queixa

é o encerramento do tempo


saudade 

saudade





quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Vinho antigo

Posso até parecer ausente

encostar nas estrelas

poetizar as nossas canções 

ter amado freneticamente o teu colo

ter borrado nossos beijos de dentro de mim

posso até parecer amargo por instantes

mas não se reescreve histórias

não se materializa verdades do dia anterior

toda vida é ausente

não existe felicidade perene

não existe futuro e nem passado

só tempo presente

viver é reinventar novos portos

abrir novas portas

amar novos espaços

mas é permitido olhar pelas frestas do dia anterior

apenas para iludir o dia 

e lavar a alma despida de alegrias



REVISITANDO MEU PAÍS

Ando a revisitar o meu país

observando as flores do meu jardim

rosas pálidas outras quimeras

rosas desertas outros jasmins

revisito a saudade outras felicidades

e ainda assim o gosto de amora invade as entranhas

da terra molhada

ando a revisitar Santa Águeda e a rua Araújo Maciel

Casa forte 

retiro as algemas do futuro e descalço

piso semanticamente pelo jardim do meu país

tropeço pelas ladeiras da serra das pedras 

que vi por lá

desço minudentemente pelo passado

e visualizo ao longe 

as rosas desfeitas e o jardim consumido pelas quimeras

continuo caminhante

na boléias do meu espanto

e quantos janeiros rolaram

e derramaram pelas fendas dos dedos nus

teu corpo nu e outros idílios

pisei esquecido no meu país

estrangeiro no meu jardim ainda sou 

a grama úmida já não é tão verde

e minha alegria dilui o pranto

e no meu país sou viajante 

passageiro de mim

enfim

revisitei meu jardim e meu país já não estava lá



terça-feira, 23 de novembro de 2021

Duas

Que dor trago a corroer a minha alegria e juventude

que se esconde nos escombros da minha alma vazia de felicidade?

que fiz por merecer um ocaso assim tão núbio e divorciado da alegria

sem colo e apatrido de amor?

onde dormirá o meu amor desfeito dentro de mim?

nas ruelas do meu passado? 

nem assim pois a íris não visualiza as lembranças vazias 

que esfumaçam a minha alma de escarpo e espinhos

Saudade do futuro? 

seria enlaço e permaneceria descalço de mim

só queria sentar. e olhar bem nos olhos e sentir o amor  no toque

tão cheio de mim que permaneceria criança de tanto amar enfim

só queria deitar no colo

deixar o amor levar 

mas onde o colo e o pranto?

onde a casa e o recanto?

eis que me encanto quando canto

e espanto a solidão em mi

queria flutuante ser 

como um sopro 

ser louco e partir 

porém

não existe partida sem porto de destino e nem caminho sem fim definido

e eis que quedo calado

no mesmo lugar apenas por desejar e não viver neste lugar

que dor trago e me embriago na solidão do amargor que desce na boca

e ainda assim trago

pois me engano imaginando o sabor da dor que estrago 

por não saber deliciar quando trago

que fiz por receber tal mérito 

por ser descrédito nas bocas que ainda balbuciam nódoas sem sentido

por decreto

ser só mas ser eterno

queria

ah! como eu queria

encostra em um peito

sentir o coração de quem ama 

sem despertar lembranças 

eternizar