quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A dor que não se mede

Qual a medida de uma vida?
um segundo
tudo termina
qual o valor do viver?
um segundo
toda uma vida
em outro rumo

Qual Senhor
o tempo de uma vida?
um segundo
um outro mundo

Toda a construção rui
todos os planos
todos os segredos
toda dor
em um segundo

Qual o termo de uma vida?
Senhor do Universo
Qual a vida que escolhestes
para Teus filhos

em um segundo
se é tão sutil
mas  é eterno
aquele átimo
da dor que não se mede

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

TERNURA




Descanso da paixão
porto
solidão
colo dos amores
espaço
refrão

silêncio dos espasmos
espera
reflexão
boca da lira
espaço
refrão

memória dos amantes
procura
questão
desejo insano
espaço
refrão

prazer depois do prazer
gosto
paixão
colo dos amores
espaço
questão

idilio




quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Meu Tempo superficial

Escrever  é uma questão de procura
e existe um tempo superficial nesta busca
que torna a alma pobre na cobiça e não reduz as posses
mas limita o desejo sano das descobertas
Esse vazio das certezas deprime a sentinela
e não existe ternura no descanso da espera
apenas se angustia a ansiedade pelo fim da responsabilidade
e o novo saber  não repara o medo da próxima hora


idilio





terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Rosas





Rosas amareladas
ainda são rosas
e exalam mansidão
de quem não viveu em vão

Rosas com pétalas toscas
são belas quando caem nas docas
pois renascem
para outras histórias

Rosas pintadas nas faces
de outras rosas
são rosas que enroscam
beijando-me a face

Rosas por que partes
sem rosas ?
por que não esperas
uma nova aurora
e descansas no colo
de Teodora ?

Rosas amareladas
descalças na serra
sem caule despétalas
mas voltas para o jardim
do Senhor

Rosa
eis que tu flores nos jardins
que desenhastes por aqui
deixastes teu cheiro
e o teu riso sem fim


para Tia Rosa que agora perfume outro jardim


idílio

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Eikhah

Como está ocaso o  mundo
antes esplendor da luz fusca
repleta de lírios e fadas
tornou-se vassalo entre províncias
mescladas de descaso
e sepulturas

Chora
no exílio minhálma
em fuga da opressão
sem portões e sem descanso
incapaz de encontrar arrimo
nem riso dos faustos
que em tempos antigos
honravam o que hoje desprezam
pois carregam impurezas em suas saias

todo  o corpo geme
e da íris vertem lágrimas de solidão
e o coração
arcaboiço da doçura
convulsiona-se dentro do peito nu
e meus gemidos são mudos

tu chamaste e meus terrores
jazem espalhados em cada esquina
como língua que se levantam
sem princípios seguem
e suas peles enrugam-se sobre a pele
mas caminham vestindo púrpura

os mortos espalham justiça
com suas mãos compassivas
esmagam o próprio peito
como se tivessem sido perfurados
pela espada de Naim
ungidos sob a proteção da Nação

Nós suportamos o peso da culpa
somos governados por escravos
e cauterizamos a nossa fome por justiça
e a alegria desaparece
como a juventude escapa em féretro
das mãos impuras  dos insanos


inútil
inútil


idílio


quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Pétalas

Anjo do norte
Rosas amarelas
orquídeas da serra
Pétalas

Menina flor
cheiro virgem
de verdes almas
da rosa pequenina
esquinas da dor

Anjo da serra
flor que exala bruma
que encanta a pedra
e despenca pétalas
por entre dedos e línguas
rosas amarelas

anjo do norte
esquinas da dor
rosa pequenina
pétalas

idilio

Sou o que Sou

Aborrece-me o ódio consumado
não poderia crer em inimigos de fato
todos os meus caminhos
enquadram o meu andar
e lá está o mais profundo abismo
de onde me ausentarei
se tomo as asas da alvorada

Ergo a minha voz
e derramo bálsamo sobre queixas
e dentro de mim
quedam as armadilhas ocultas
da terra dos viventes

Levanto as mãos
e o meu coração se vê turbado
em uma terra sedenta
que me esconde a face
e como a sombra que passa
disperso a mentira
do poder dos estranhos

e meu lamento
divulga as faces notórias da maldade
e invoco a vontade dos que temem
e dos que esperam
e destrancam as portas das fronteiras
que fazem de mim
uma nação

idilio

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Dor suprema

Dor suprema
alma esquecida
e a mentira da ausência
e o consolo do desespero

Dor que se instala
e a paz doente
a vida que mente
e o fim da espera

dor que encarcera
e o desprezo do amanhecer
abandono da voz da esperança
lágrima de cera

dor suprema
alma esquecida
pedaço de mim
voltas enfim

idilio

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Orquídea da serra

anjo do norte
rosa amarela
orquídea da serra
pétalas

menina flor
cheiro virgem
da rosa pequenina
esquinas da dor

anjo da serra
florzinha que exala bruma
que encanta a pedra
e desperta o monte

menina que saliva
a rosa
e entorta
a  porta do cantor


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Nós dois


Desenhamos um filho
e vivemos nós dois
fizemos a história
e mudamos  depois

nós dois
aplacamos o tempo
escrevemos  bons momentos
e mudamos depois

apagamos os sonhos
de quem veio no antes
em nóis
construímos depois
nosso tempo e vivemos
nós dois

e mudamos de roupa
mudamos de  medo
e vivemos as gotas
que caiam de nós
em nóis

e hoje
bem um tempo depois
só desejo te ver feliz
nós dois
nos dois nóis

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Gosto



Um toque
e a boca derrama
e o cheia de espanto
engole o medo e de tanto
partir e chegar
grita por encanto

Um beijo
e o olho morto
derrama
gotas pelo chão

Um cheiro
e o despertar
e a explosão
da lira

Um toque
e o encharque
da ira
e o sufoco
da rosa
que despetalas
num gemido surdo

Um toque
um beijo
um cheiro
um gosto

idilio

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Verde




Verdes
livres da esperança da volta
longe
que entorta o azul
que te dou

leve
quando escondes
o desejo de me ver chegar

verdes
atrás da íris negra
da aliança que pactuas

mesmo que nua
não é minha
nem tua
a gruta que esconde a fala
do desejo que me enlaça

úmida
a porta da minha volta
e do meu prazer em te-la

verde
tua boca
é verde da cor do meu pecado
quando disfarço
meu desejo de respirar
teu hálito
e beijo de soslaio
teu nome

verde

Serei tua

Serei tua
por toda uma eterna manhã
apenas desço da solidão do ontem
e vivo as línguas da juventude
emaranhadas na visão
sublimada da menina na praça

serei tua
por toda a manhã de nós
das bocas que calam
e eternizam o não como um sim

serei a primeira
mas aquela manhã
foi a vida inteira

serei tua
por toda a eterna manhã
das desculpas
e dos meus nãos
quando era namorada
mais que amada

serei tua
apenas na manhã
de nós
não mais das tardes que somos
nem das noites
que nos esperam

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Tu és

Tu és

minha fala e estrada
e o que espero
todo dia
no limite do meu espaço
quando rasgo
a solidão
pelo teu braço

meu regresso
e meu descanso
o meu fado
quando sozinho
escuto e silencio
e grito mudo
por teu abraço

o meu resto
quando tudo é desperdício
e efêmero

eterno e meu
Universo
quando pequenino
te espero
todo dia

cura da melancolia
e meu verso
quando triste
desperto
e fico bem perto
do anverso
do resto

domingo, 10 de novembro de 2013

Jejuar

Jejuar é sofrer consciente
mas uma dor efêmera
consequente da ação insana
e perdida

jejuar
é compreender a sede
no deserto da dor
é a materialização do arrependimento
é o auto perdão

jejuar é o ápice da oração
é a gratidão
é a memória do coração

que abdica da revolta
e do desespero

jejuar é a resposta
que prepara a alma
é o pleito que não implora
mas agradece e chora

é o amor
é a porta

Duas

Duas
e uma só boca
uma só estrada

duas
e um só medo
uma só volta

como beijos
que nunca te deixam

duas
o conforto
e o mergulho
a fome
e o desprezo da voz

a certeza
e o azul infinito
como ninhos
além das fronteiras
de algum lugar

duas
e a porta que esconde o dia
e enclausura a fala do cantor
que morre de asfixia
das emoções e da dor

duas
apenas uma escolha
e uma saída
e nada na língua
além da fala
que emudece a alma

O beijo





O beijo que você me deu
me deu
não foi um beijo
meu
foi teu
e teu
e eu
gostava tanto
de te ter

o beijo
meu bem
enroscou
no passado
o beijo
que você
perdeu
foi meu
e meu

o beijo
que você
esqueceu
na boca
da serra do mar
no ororubá
foi um beijo
que me perdeu
o teu
e o meu
na  catedral
e Águeda
abençoou
o beijo
que você me deu

sábado, 2 de novembro de 2013

Querubim

Chorei!
pois perdi
a voz

a lágrima
a última fala
a fala de quem
já não tem voz

chorei!
e mudo
imitei a língua
implorei
volta!

Chorei!
e a vida escorreu
por brechas
que desenhei

Chorei!
e mudo
estornei a ala da fala
pois gritei
tão intensamente
que deixei a vida na sala
inerte e cálida

Chorei!
e deixei a voz escorrer
no conformismo da espera
e não mais amei
nem assisti o sol nascer
apenas saí por aí
sem caminhar

Chorei!
e na ilusão
não pude voltar
pra mim
e pintei
um nome
um fim

Chorei!
apenas chorei
querubim

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Memórias do Café Nice

Quero poetizar minha sina
quiçá eternizar a menina
de olhos mágicos
minha namorada agreste

poetizar o espaço
e misturar tintas
nas paredes das ruas da espera

viajar nos mares cinzas da capital
e deixar a luza fusca
derramar nódoas nostálgicas
do Café Nice

não ser alegre nem triste
poetizar e desenhar linhas imaginárias
do infinito

desejar
nem a partida nem a chegada
e desprezar os corvos
e os abutres dos sonhos
que encontrar

suzabear o cruzeiro
não ser alegre nem triste
apenas
poetizar o estreito do ororubá

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Desejos

Desejos flutuam
e não poderia dize que apenas flutuo em ti
pois que  assim o meu querer findaria em ti
Digo-te
necessito de ti
pois que
dia a dia
recupero o desejo pela necessidade
que
longe de ser uma flutuação de desvalor
é o desejável
alicerçando-se na reciprocidade

mas
devo dizer-te
que essa minha necessidade
projeta o desejo
para dentro das fronteiras da troca

é bem verdade que
essa minha necessidade
apaga-se
ao se expor
e é bem possível que desapareça
na sua própria manifestação
pois que não cessa quando velada
e se retira no seu segredo

compreendo que o desejo
está comprometido com a necessidade
mas é exatamente esse caráter descontínuo
que torna
o desejo efêmero
e a necessidade eterna

o que experiência a convivência dos dois
sem haver exclusão
a mobilização do desejo é factual
mas
a necessidade é a auto afirmação
do amor
e é impossível
reduzir o amor
ao silêncio
o desejo não é a expressão
patológica das paixões
e sim exigência da necessidade
necessito
exatamente por desejar todo dia
não como vício
mas como essencialidade
no meu viver

idilio